Por Rithyele Dantas

Ao comparar o Bolsonaro das capas de jornais nacionais com o Bolsonaro das capas de jornais internacionais a impressão é de que são dois presidentes distintos que o Brasil acaba de eleger.

O povo votou e a imprensa noticiou: Jair Bolsonaro é o novo presidente do Brasil, eleito com 58 milhões de votos, derrotando o candidato do PT, Fernando Haddad.

Bolsonaro, durante toda a campanha, foi equalizando seu discurso, como quem tenta encontrar o melhor caminho para dialogar com a maior parte da população. Conseguiu. Aquele que disse que o erro da ditadura foi ter torturado e não matado foi eleito. Aquele que defende a tortura foi eleito. Aquele que já disse preferir um filho morto a um filho gay foi eleito. Aquele que disse que os filhos não namoram negras, porque têm educação, em seu primeiro discurso afirmou:

“Faço de vocês minhas testemunhas, de que esse governo será defensor da constituição, da democracia e da liberdade.”

O fim do próprio sistema democrático, com Bolsonaro no poder, é uma grande preocupação de diversos setores, incluindo a imprensa. Os principais jornais brasileiros, na segunda-feira pós vitória, em suas capas fizeram questão de enfatizar a parte do discurso em que Bolsonaro disse que vai defender a democracia, a constituição e a liberdade.

O Jornal Extra, do Rio, foi um dos poucos que usaram uma linha mais crítica. Trazendo uma característica carioca de fazer capas de jornais, a capa do Jornal Extra faz uma graça: “É melhor Jair se lembrando” reportando fragmentos do discurso do candidato que remetem à defesa das liberdades individuais.

capa extra bolsonaro

Os discursos autoritários do primeiro militar a ser eleito Presidente da República do Brasil desde 1945 assustou muitas pessoas que, durante às eleições, foram às ruas. O capitão chegou a dizer para seus apoiadores que varreria os “vermelhos” do país, fazendo referência aos setores de esquerda.

Se na segunda-feira do Brasil os jornais nacionais expuseram um presidente que promete defender a democracia e liberdades, nos principais veículos internacionais a narrativa é gritantemente diferente.

Um presidente no Brasil. Um Far-right, no jornal The Guardian, da Inglaterra. Un país a la derecha, diz El Colômbia. Um câmbio radical, no El País do Uruguai. Um giro a ultraderecha, para La Vanguardia, da Espanha. Ultradestra, diz o La Stampa da Itália. 


No británico jornal The Guardian, um dos mais importantes do mundo, o Brasil elegeu

“Um populista de extrema-direita, pró-armas e pró-tortura”

the guardian

Para o Los Angeles Times: “Um populista de extrema-direita vence as eleições presidenciais no Brasil”

 

los angeles

“O tom nacionalista de Jair Bolsonaro e seus insultos às minorias o fazem ganhar comparações com Donald Trump”

“O Brasil, no domingo, se tornou o último país a dar uma guinada para a extrema direita populista elegendo um capitão reformado do exército, que já insultou mulheres e minorias raciais. Elegeu alguém que celebra a ditadura militar e defende o uso da tortura.”

 

“Por si só, esse jornal já acabou.”

Disse Bolsonaro nesta segunda-feira em entrevista ao Jornal Nacional fazendo referência à Folha de São Paulo. Talvez o único grande veículo que foi na garganta do candidato após sua eleição. Surpreendentemente (ou não!), a Folha de São Paulo trouxe um editorial extremamente crítico em sua capa. Reconheceu a importância de Bolsonaro firmar o compromisso com a democracia, mas atacou a postura sempre autoritária de Bolsonaro durante seus 27 anos como parlamentar. A Folha foi alvo de Bolsonaro durante a campanha.

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Reconheça-se o gesto, mas sem deixar de apontar que, durante 27 anos como deputado e ao longo desta eleição, Bolsonaro deu inúmeros sinais de que ignora rudimentos da convivência democrática, como o respeito às instituições de Estado, a proteção das minorias e a transigência com diferentes pontos de vista.

Também demonstrou desconhecer o papel da imprensa livre nas sociedades modernas. Inconformado com uma reportagem, entrou com ação contra três profissionais deste jornal. Por meio de advogados, sugere que a Folha o transformou em alvo e agiu com o propósito de prejudicar sua candidatura.

Na melhor das hipóteses, confunde jornalismo independente e crítico com atuação partidária. Na pior, pretende intimidar não só esta empresa, obcecada pelo pluralismo e pelo apartidarismo, mas todos os veículos que se recusem a lhe prestar continência.

 

rithy_Prancheta 1Rithyele Dantas tem 22 anos, é estudante de jornalismo no Rio de Janeiro. É fotojornalista,  já atuou como educadora popular se considera “fazedora” e “correria” porque gosta de estar em vários lugares. Tudo ao mesmo tempo agora. Rithyele é fundadora do jornalistaspretas.org, uma construção que acredita ser importante para a criação de uma outra narrativa mais humana e sensível sobre os acontecimentos. 

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