Por Rithyele Dantas | 24/10/2018
Lideranças e coletivos de favelas, de cultura e mídia receberam, no Centro de Artes da Maré, no gigante Complexo da Maré, o candidato do PT à presidência, Fernando Haddad, e sua vice Manuela Dávila na tarde desta terça-feira, 23.
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Jovens gritavam “É pela vida, pela saúde, pela educação, por moradia”

A Maré, de onde saiu a vereadora Marielle Franco, é um dos maiores complexos de favelas do Rio de Janeiro, com cerca de 17 favelas e 130 mil moradores. O evento entitulado como “Vira Voto – Favelas com Haddad” contou com movimentos que lutam diariamente contra a violência de Estado e violação dos direitos humanos – como é o caso das Mães Vítimas de Violência do Estado que, na voz de Bruna Silva, se posicionaram contrárias ao candidato Jair Bolsonaro (PSL) e a polêmica questão da liberação de armas. A vida é sempre uma questão em todas as manifestações faveladas e, não à toa, a escolha destes grupos foram pela “chapa da vida” e não pela chapa de militares que propõe medidas imediatas pautadas em mais confrontos armados.

“Eu não quero o 17 porque ele é favor da liberação das armas de fogo. O Bolsonaro é mais um que vem de cima. Não apoiem quem vem de cima!”, falou Bruna, sempre emocionada, desde que perdeu seu filho, Marcos Vinícius, de 14 anos, na Maré, em julho, num dia de imensa operação das forças policiais. Marcos, ferido no hospital, disse a sua mãe que foi o Caveirão quem atirou.

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Outra que falou na questão da segurança foi MC Martina, do Complexo do Alemão, uma potência dos SLAMs cariocas. Em seu verso falou da realidade:

“Todos os dias eu vejo uma chacina”.

A candidata a vice-presidenta, Manuela Dávila, foi anunciada como candidata a co-presidenta (uma tradição do PSOL no Rio) e foi mais uma voz que trouxe o assunto da violência para o centro da conversa. Ela ressaltou a violência machista, racista e LGBTfóbica que já mata os brasileiros.

“Bolsonaro é a arma na mão daqueles que já nos matam! Marielle Vive, Anderson Vive, Marcus Vinícius Vive”, homenageou Manuela.

Manuela, como co-candidata e mãe, criticou as propostas de Bolsonaro para a educação.

“Bolsonaro diz que quer ensino à distância! Como assim? Como as famílias vão ir trabalhar, vão deixar as crianças onde? E a merenda? Em que país Bolsonaro vive? Negros, mulheres, LGBTs, todos os favelados querem vida, direitos, esporte, educação e cultura! Queremos um professor-presidente”, disse Manuela.

Por falar em cultura, foi este o principal assunto abordado por Fernando Haddad durante sua participação.

“O samba vem da comunidade, o hip hop vem da comunidade….”. Logo o candidato foi corrigido pelas pessoas que fazem questão do uso do termo “favela”. Haddad seguiu: “o funk vem da favela!”

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Mais tarde, a deputada estadual recém eleita Mônica Francisco, da favela do Borel, fomentou o discurso de Haddad dizendo que a favela é potência:

“A gente estar aqui, neste momento, no Centro de Artes da Maré é muito emblemático. A favela não é só comida e trabalho. A favela também é arte.”

Em sua fala, Haddad prometeu, caso eleito, garantir uma parte do orçamento do Ministério da Cultura para a produção cultural para coletivos de periferia. O Plano de incentivo à Cultura foi implementado durante a gestão de Fernando Haddad na prefeitura de São Paulo. O programa foi viabilizado pela Lei do Fomento à Periferia em 2016.

Perguntada sobre os desafios para eleger Haddad, Mônica Francisco respondeu:

“Os desafios são disputar narrativa. Disputar uma narrativa violenta, uma narrativa que disputa o voto se dizendo não pertencente ao sistema, mas estando dentro do sistema político há mais de 20 anos. E não tendo produzido nenhum tipo de benefício pro estado do Rio de Janeiro. Então o desafio é disputar a narrativa, conversar com as pessoas, tentar virar os votos, de 17 pra 13, dizendo e mostrando que é esse projeto de ódio, violência, anti-democrático.”

Segurança, educação, cultura e emprego! Xaolin da Rocinha, liderança da favela, disse que uma das maiores preocupações da favela é a questão do emprego, do dinheiro e disse que apoia Haddad porque ele apresenta planos mais consistentes para a economia do país.

“Há uma disputa de classes no Brasil dos dias de hoje. Os interesses do grande capital, dos ricos, dos banqueiros são contra os direitos dos trabalhadores. E a favela é a base da classe trabalhadora. A favela é quem recebe a maior parte dos desempregados. Nesse sentido, a gente tem que fazer campanha para o Haddad porque o programa do Haddad prioriza a classe trabalhadora”.

Certamente pensando nos desejos de pessoas como Xaolin, o slogan da campanha de Haddad, especialmente no segundo turno, é “um diploma numa mão e a carteira de trabalho na outra.”

Em clima de esperança, a multidão fez um corredor para Haddad e sua comitiva partirem para outros compromissos no Rio. Mas a van que deixava a Maré teve um contratempo logo na saída. Um motociclista levava em sua garupa uma mulher com um imenso bolo de aniversário no colo! Nada mais favela que um moto-táxi e um bolo na garupa.

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Depois da van vencer o desafio, a comitiva foi se encontrar com o arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Orani Tempesta, e com a Pastoral das Favelas, em um evento ao lado do vereador do Rio Reimont (PT). Neste encontro, Haddad fez mais uma fala importantíssima para a vida das favelas.

“Aqui, particularmente no Rio de Janeiro, até como homenagem ao trabalho que essa pastoral vem fazendo, nós assumimos um compromisso adicional com um tema caro ao Dom Orani que é a regularização fundiária das favelas”, disse o candidato antes de formalizar a promessa, assinando um documento.

Dali, Haddad e toda a comitiva ainda tiveram fôlego para ir à Lapa, no maior comício do candidato em toda essa campanha. E não é que, em um dos corações da classe-média carioca, a favela foi o assunto principal também? Tudo graças a Mano Brown, que mandou a real:

“Se nós somos o Partido dos Trabalhadores, o partido do povo tem que entender o que o povo quer. Se não sabe, volta para a base e vai procurar saber”.

Hoje no twitter o candidato Fernando Haddad postou que o rapper tem toda razão. Que sem a periferia – que é o centro do país – não há como seguir fazendo política.
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rithy_Prancheta 1Rithyele Dantas tem 22 anos, é estudante de jornalismo no Rio de Janeiro. É fotojornalista,  já atuou como educadora popular e se considera uma “fazedora”, porque gosta de se apropriar da tecnologia. Também é “correria” porque gosta de estar em vários lugares e presenciar momentos históricos. Rithyele é fundadora do jornalistaspretas.org, uma construção que acredita ser importante para a criação de uma outra narrativa mais humana e sensível sobre os acontecimentos. 

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