Terceiro episódio da série produzida pela GloboNews traz iniciativa que promove maior participação da mulher negra no campo político

Por Tatiane Alves

Rio – Costuma-se ouvir que uma de nossas maiores necessidades políticas, é ter um sistema eleitoral que permita uma renovação no quadro parlamentar. No entanto, há seis meses, o Rio de Janeiro presenciou o assassinato de Marielle Franco (Psol), a quinta vereadora mais votada do Estado, mulher e negra, executada a tiros juntamente com seu motorista Anderson Gomes.

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Enquanto a sociedade segue sem respostas para este crime, as mulheres – sejam nas redes sociais ou em manifestações públicas – estão cada vez mais atuantes na esfera política. Ao longo dos anos, temos visto um crescimento no número de mulheres que estão na luta por maior igualdade de gênero nos espaços. O reflexo desse movimento resulta em iniciativas necessárias e potentes. É o caso da Rede Umunna, que visa promover a maior participação de mulheres negras nas decisões eleitorais e acompanhar a atuação daquelas que estão na disputa para ocupar espaços na política institucional. O movimento surgiu um mês antes do assassinato de Marielle Franco e veio justamente para pensar na política institucional e envolver a sociedade civil no processo político e democrático.

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REDE UMUNNA (imagem retirada do site Gênero e Número)

Com poucos meses de articulação, o projeto foi uma das iniciativas que fazem parte da série “Política: modo de fazer” da GloboNews. A série é uma parceria com o Instituto Update (pesquisa e conteúdo) em coprodução da Maria Farinha Filmes e que, na noite do dia 13 – exatamente, seis meses após a morte de Marielle – teve seu 3° episódio exibido em primeira mão na Casa Pública, em Botafogo. Logo após a exibição, rolou um bate-papo entre os envolvidos na produção da série e membros da rede.

Quem abriu a roda de conversa, foi o jornalista e também pesquisador do Instituto Update, Wellington Amorim, que trouxe dados importantes sobre a pesquisa realizada pelo instituto chamada “Emergências Políticas Periferias” que busca fortalecer a democracia a partir da renovação política firmada na diversidade e na inovação. O projeto foi realizado em cinco capitais brasileiras na tentativa de retratar como se dá a inovação política nas periferias, pautando iniciativas inovadoras que reduzam as desigualdades, fortaleça a vida nas áreas periféricas e que forme cidadãos políticos.

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Wellington Amorim explica sobre o projeto do Instituto Update

– Feita com pesquisadores locais, coletivos e pessoas ligadas à política institucional em laboratórios, cujos espaços são experimentações de políticas públicas que apontam caminhos para a inovação política. Tais laboratórios abordaram temas centrais como o direito à existência, o direito à memória, educação e cultura, o direito à economia e bem viver, o direito à participação social e o direito à ocupação do poder. Tudo isso para tentar exemplificar o que seria inovação política para a gente, mas antes de tudo preciso é importante ressaltar que a Marielle foi o começo, o meio e o fim dessa pesquisa, ela é uma representação real do que seria inovação política. O que a gente propõe é ter um ecossistema em formato espiral funcionando de forma integrada e coletiva, sendo essa nova forma social de lidar com a política – disse.

Indagada pela jornalista Cristiane Aragão sobre como poderia organizar o projeto na prática, a fundadora da Rede Umunna, Ana Carolina Lourenço, apresentou um pouco das realizações da rede ao longo do ano e o que mudou com a morte de Marielle Franco.

– Nós reunimos mulheres negras que fazem coisas… Que estão com a “mão na massa”, à frente de políticas públicas para aprimorarem o serviço prestado pelo SUS, que trabalham em prol da renovação política em organizações, que fazem um jornalismo investigativo, modelagem dados… Ou seja, são mulheres negras que tiveram o acesso ao Ensino Superior e que por conta do “boom” de qualificação profissional que, só foi possível através de políticas específicas, já estavam muito empenhadas na luta pela garantia de mais direitos e, no entanto, temos poucos espaços para nos reunir e criar estratégias para projetos de poder político. Nossas reuniões acontecem em um dia da semana no horário da noite e reúne cerca de 20 mulheres negras. Em noites como essa existe uma troca e nós costumamos ficar sentadas debatendo por duas horas ou mais abrindo a caixa do poder político e trazendo problemas específicos dessas mulheres que encontram na roda um lugar confortável para compartilhar dúvidas e pensar soluções. A gente já tinha no dia 14 de março, um protótipo do projeto da rede em relação às campanhas eleitorais, mas muita coisa mudou por conta do assassinato da Mari e acabamos tendo uma visibilidade maior por conta do nosso perfil no Instagram. O que aconteceu com a Mari de certa nos impulsionou e vimos à necessidade de realizar um laboratório de campanha para entender qual seriam os nossos próximos passos… Então, a gente percebeu que o encontro presencial é fundamental e com o passar do tempo, nós ganhamos certa expertise por conta do contato com pré-candidatas negras e isso fez com que nós trabalhássemos em cima de desmistificar ideias sobre as candidaturas de mulheres negras – contou.

Ana Carolina continuou dizendo sobre o objetivo da rede.

– Nosso propósito é que a partir do nosso debate, a gente consiga criar um espaço para que mais mulheres negras tenham participação política e pensar na política institucional para além das candidaturas – enfatizou.

Os episódios dá série tem direção de Yasmin Thayná, de 25 anos, nascida e criada na Baixada Fluminense. A cineasta comemora a realização de seu primeiro trabalho para a televisão e conta o que a auxiliou a desbravar mais esse desafio profissional.

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Yasmin Thayná (imagem retirada do Afroflix)

– Quando eu vou dirigir qualquer coisa que seja eu pertenço a duas coisas: a Nova Iguaçu e ao cinema. E foi em Nova Iguaçu que aprendi a pertencer ao cinema. O fato de ter pertencido a um lugar e ter pertencido a lugares me permitiu ser capaz de dirigir uma produção como essa, dentro de uma emissora grande que tem outro tempo, um formato muito específico e ainda ter os pés no chão para assumir um compromisso com a história de que eu queria construir e com o meu trabalho como diretora. Eu estava montando e editando histórias de pessoas que abriram as portas de suas casas para me receber, muitas delas só abriram suas portas porque era eu quem estava dirigindo e isso é uma responsabilidade enorme, mas essa relação de confiança com as pessoas mudou tudo… Então, embora tenha sido um desafio do tipo “meu deus!” eu acho que foi incrível e necessária – confidenciou.

Responsável por mediar a roda de conversa a jornalista e supervisora de programas da GloboNews, Cristina Aragão encerrou a noite elogiando o projeto e dizendo que foi um enorme prazer participar.

“Política: Modo de Fazer” terá episódios exibidos nos próximos dias na GloboNews nos seguintes horários: quinta-feira, 20/09 às 00h30, sábado, 22/09 às 14h05 e sábado, 22/09 às 19h30.  A série também estará disponível na GloboNews Play.

 

 

 

 

 

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Tatiane Alves tem 27 anos, é estudante de jornalismo, faz qualquer papinho se tornar um papão, é aficionada por café, notívaga, melomaníaca e colecionadora de imãs de geladeira. É colaboradora do site jornalistaspretas.org, porque acredita que seja uma plataforma necessária para a construção de um jornalismo plural e com compromisso social.

 

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