Por Rithyele Dantas
Mais de 5 mil pessoas – a imensa maioria fiéis de religiões afro-brasileiras – tomaram o calçadão de Copacabana neste domingo (16). 
Caminhada Liberdade Religiosa 2018-19
Foto de Rithyele Dantas | Jornalistas Pretas
Já é tradição no Rio: em janeiro o réveillon, em fevereiro o carnaval, em setembro a Caminhada Pela Liberdade Religiosa. Além da multidão vestida de branco, da Umbanda e do Candomblé, a mais tradicional caminhada pela liberdade religiosa do Rio de Janeiro teve a presença de alguns notáveis de outras religiões, como o padre Fábio de Melo e o pastor Kléber Lucas, da Igreja Batista.

Em entrevista ao Jornalistas Pretas, Kléber Lucas disse que teme a eleição de Jair Bolsonaro, que também se declara batista, para a presidência do Brasil.
“Os indícios são claros sobre esse movimento que tá acontecendo no Brasil e eu temo muito por ele”. 
 
Bolsonaro já declarou que  “já que o Brasil é um país cristão, Deus acima de todos, não tem essa historinha de Estado laico não! É estado cristão! Vamos fazer um Brasil para as maiorias!” 

Caminhada Liberdade Religiosa 2018-8
Foto de Rithyele Dantas | Jornalistas Pretas

Padre Fábio não pede desculpa, mas diz que aprendeu com declaração intolerante

O padre Fábio há alguns meses disse que comeria macumba se ela aparecesse “fresca” na porta de sua casa, declaração que provocou uma enxurrada de críticas justíssimas a ele. E após toda confusão, ele esteve na marcha a convite do babalawô Ivanir dos Santos, um dos organizadores da caminhada e uma referência no combate à intolerância religiosa e luta pelos direitos humanos no Rio e no Brasil.
“Um dos destaques deste ano é trazermos para a caminhada os formadores de opinião, como o padre Fábio de Melo, que é um grande padre para os católicos, o Kléber Lucas, dos evangélicos, e o Rabino Nilton Bonder, que são pessoas que têm muito influência nas suas comunidades. O fato deles aderirem à caminhada amplifica cada vez mais que esse é o caminho para a sociedade brasileira, não o caminho do ódio, do racismo e do desrespeito aos direitos humanos”.

O padre Fábio de Melo teve uma declaração bem intolerante esse ano. Como é a conversa com ele?

“Ele teve, mas o fato dele estar aqui mostra que ele tem uma atitude diferente. Para nós, mais do que acirrar os conflitos o importante é trazer a pessoa a aderir à causa. Ele estar aqui e dar a sua própria palavra sobre o que aconteceu, com o espírito de perdão, é um passo importante para o entendimento”.
O padre Fábio, após o ocorrido em maio, ligou para se desculpar com Ivanir, mas, na oportunidade que teve neste domingo, não pediu desculpas para a multidão. Disse que sua criação foi entre religiões afrobrasileiras e que “piadas” como a que fez eram comuns. No entanto, em rápida entrevista ao Jornalistas Pretas, disse que aprendeu com o episódio.
“Uma ótima oportunidade de aprender e mudar a linguagem. É algo antigo e é muito bom aprender”. 
Outro cristão que esteve em evidência na caminhada foi o pastor batista Kléber Lucas, que sofreu de intolerância religiosa dos próprios evangélicos este ano depois de ir a um terreiro de candomblé que havia sido destruído, em Duque de Caxias, por criminosos.
“Eu não represento nenhum tipo de movimento que faz apologia ao ódio, a segregação de seres humanos. Nós acreditamos que podemos juntos conviver pacificamente. Essa caminhada não é contra ninguém, é contra a intolerância, o ódio, contra o racismo institucional, contra o genocídio negro no Brasil. Estamos juntos porque juntos somos mais fortes. Deus abençoe a todos vocês. Agradeço o babalorixá Ivanir, meu amigo e meu irmão, que me trouxe para esse ambiente solidário. E eu confesso para vocês que nos últimos meses é o ambiente que eu me sinto mais acolhido, mais humano”.
Caminhada Liberdade Religiosa 2018-40
Foto de Rithyele Dantas | Jornalistas Pretas

Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (DECRADI) já foi anunciada, mas ainda não foi instalada no Rio

 
No mês passado, o Gabinete da Intervenção Militar no Rio anunciou a criação da DECRADI, o que chegou a ser publicada no Diário Oficial, mas os líderes religiosos e as vítimas da intolerância seguem aguardando a instalação desta delegacia, uma antiga demanda dos movimentos negros e dos grupos religiosos que são mais vulneráveis à violência.
“A delegacia é um passo importante mas não foi implantada, foi só oficializada. Querendo ou não, é um fato importante”, disse Ivanir dos Santos, como quem cobra mais agilidade na implantação.
Caminhada Liberdade Religiosa 2018-11
Foto de Rithyele Dantas | Jornalistas Pretas
Outro fato que assusta especialmente os fiéis de religiões afro-brasileiras é o crescimento da intolerância das facções criminosas que têm lideranças evangélicas. Moradores denunciam que situações como essas estão por detrás do aumento de ataques a centros religiosos na Baixada – especialmente em Nova Iguaçu – e também na região da Cidade Alta, na zona oeste do Rio.

Homenagem à Marielle

 
A vereadora Marielle Franco, se viva, certamente estaria vestida de branco caminhando por Copacabana e esbanjado sua risada marcante. Seus rosto estava em camisas e faixas. Marielle foi homenageada durante toda a caminhada. Sua mãe, irmã e filha estavam no caminhão principal. Marinete Silva, a mãe, católica, foi quem falou:
“É um momento de cobrança e de dor. Momento de se fortalecer diante do que estamos passando. Grande beijo a todos, tenham um bom domingo, que a gente possa cada vez mais seguir com essa causa, de resistir, de lutar, de cobrar tudo aquilo que Marielle pregava e acreditava” .

Caminhada Liberdade Religiosa 2018-20.jpg
Foto de Rithyele Dantas | Jornalistas Pretas

Marchar não é caminhar e apoio a Ivanir

 
O babalawô Ivanir é um homem de história de vida marcante. Filho de mulher que foi obrigada a se prostituir para sobreviver, foi raptado com apenas 8 anos e levado à FUNABEM, ao tentá-la encontrar, aos 14, soube de sua morte e, desde então, dedicou toda à sua vida à luta pelos direitos humanos. Este ano foi pré-candidato porque, queria conquistar uma cadeira no Senado pelo PPS. No entanto, o jogo racista partidário brasileiro derrubou sua intenção de concorrer a esta vaga. Diversos grupos levaram faixas para demonstrar solidariedade ao caso. Pessoas que entendem que históricos de luta como a de Ivanir fariam a diferença no Senado Federal, no Congresso Nacional, um antro cada vez mais intolerante e violento contra a diferença.
A chamada da Marcha deste ano era Caminhar Não É Marchar, título da tese de doutorado de Ivanir dos Santos, recém defendida na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Qual a diferença? O próprio Ivanir responde, trazendo o espírito da celebração deste domingo.
“Quando você marcha, você quer destruir o outro. Você quer afirmar sua identidade pro outro e eliminá-lo. Caminhar você aprende. Caminhar é, mesmo na adversidade, você conhecer o outro e trocar. Caminhar… você recua, você avança, num grande processo de aprendizagem. E é assim que a sociedade tá: você tá vendo que tem um que quer marchar, e a gente tem que caminhar. Marchar é muito ruim. Marchar é o caminho do fascismo, do racismo e da intolerância religiosa. Queremos caminhar em direção à liberdade, à diversidade e ao respeito”.
Caminhada Liberdade Religiosa 2018-18
Foto de Rithyele Dantas | Jornalistas Pretas
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Rithyele Dantas tem 22 anos, é estudante de jornalismo no Rio de Janeiro. É fotojornalista,  já atuou como educadora popular e se considera uma “fazedora” . É fundadora do jornalistaspretas.org, uma construção que acredita ser importante para a garantia dos direitos humanos.

Um comentário sobre “Diante da ameaça do fascismo, multidão lota 11ª Caminhada pela Liberdade Religiosa

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