Profissionais de diversas áreas debateram o legado deixado por Zózimo Bulbul e traçam novos rumos para o audiovisual

Por Tatiane Alves  / Fotografia: João Araió

O Centro Afro Carioca de Cinema reuniu na quinta-feira, dia 9, atrizes, atores, cineastas, jornalistas e publicitários com o objetivo de promover ações que fortaleçam a rede de relacionamento e colaboração entre profissionais negros. Com o tema “A Câmera é uma Arma”, o encontro trouxe para o centro do debate as oportunidades não igualitárias de inserção no mercado de trabalho, a escassez de plataformas que contemplem a população negra e o legado deixado pelo fundador do local, o ator e diretor Zózimo Bulbul.

sobre o evento

A necessidade de criar e consolidar espaços que representem os 54% da população que ainda não se veem representados na mídia hegemônica e a proximidade da 11º edição do “Encontro de Cinema Negro – Brasil, África e Caribe”, marcado para acontecer no fim deste mês também foram assuntos que motivaram a realização da reunião.

Na ocasião, Zózimo foi homenageado por amigos que, através de palavras emocionadas, relembraram sua trajetória iniciada nos anos 60, no Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (UNE). Em sua jornada, atuando ou dirigindo, Zózimo tentou denunciar a realidade do negro no Brasil, trazendo produções sob o viés da luta e do resgate da autoestima, deixando um legado cinematográfico que valoriza a cultura negra.

A atriz Dani Ornellas comentou sobre a importância de encontros como esses.

– Aprendi com a minha ancestralidade que as construções feitas pela segregação fazem com que nós adoeçamos na nossa solidão. Encontros como esses são necessários para potencializar a nossa existência, para deixar possível e acessível os nossos projetos e as nossas realizações. Isso humaniza as relações e nos cura. Eu não vejo outra forma de seguir em frente enquanto artistas, roteiristas, diretores, produtores ou jornalistas sem nos encontrarmos, sem nos conhecermos e sem trocarmos uns com os outros a respeito dos nossos trabalhos – ressalta.

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Dani Ornellas durante o encontro no Centro Afro Carioca de Cinema

Para a jornalista Marcela Lisboa que, atualmente, trabalha na comunicação visual do Centro Afro de Cinema criado por Zózimo, o que não falta são histórias a serem contadas.

– Muito das nossas narrativas foram contadas através da tela do cinema nos últimos anos, mas não foram feitas por nós. Hoje, já existem canais na internet que buscam representar de forma efetiva a população negra brasileira, mas ainda é muito pouco. Precisamos nos apropriar das técnicas que nos dê maior autonomia. Há muitas histórias para contar, mas faltam plataformas reais para tais produções. Reuniões como essas nascem dessas necessidades e incentivam o desenvolvimento de plataformas e conteúdos que nos contemplem ainda mais – enfatiza.

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A jornalista Marcela Lisboa em sua fala sobre ausência de plataformas que contemplem a população negra

Hoje a câmera é uma poderosa ferramenta que, se bem usada, auxilia na construção de conteúdos relevantes para à sociedade. Silvana Bahia, coordenadora de comunicação do Olabi defende o uso dessas tecnologias, mas comenta que espaços como o centro de cinema agregam outros valores.

– A maior tecnologia que nós temos, é a tecnologia do olho no olho. Eu acredito que esse espaço é um local para criação de uma rede baseada no afeto e isso é o que é mais incrível – diz.

Também estiveram presentes à jornalista Ellen Paes, o cineasta Clementino Junior, a estilista Maria Chantal e outros profissionais que estão atuando em diferentes frentes e que buscam com seus trabalhos desenvolver ações de inserção e valorização da cultura negra.

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Na foto estão (da esquerda para direita) Silvana Bahia, Marcela Lisboa, Núbia Dara, Rithyele Dantas, Cecília Oliveira, Ellen Paes, Thais Rosa e Maria Chantal.

ENCONTRO ANUAL REUNIRÁ MAIS DE 100 PROJETOS AUDIOVISUAIS

O “Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul – Brasil, África e Caribe” criado em 2007, trará entre os dias 29 de agosto e 09 de setembro, cerca de 180 produções cinematográficas sob a curadoria do diretor Joel Zito Araújo e Janaína Oliveira. Em mais uma edição, o evento propõe a valorização do cinema negro promovendo o intercâmbio entre realizadores brasileiros, africanos e da diáspora. A programação ocupará os espaços do Cinema Odeon, Centro Cultural Justiça Federal (Cinelândia), MAR Museu de Arte do Rio (Praça Mauá) e Cine Arte UFF (Niterói).

Confira a programação completa no site: https://goo.gl/Ya5TF9

 

 

 

Um comentário sobre ““A maior tecnologia que temos é a do olho no olho”, diz Silvana Bahia, em noite de encontros no Centro Afro Carioca de Cinema

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