Texto e fotos: Amanda Pinheiro

Conversas, risadas, aprendizado e afeto: evento debateu a importância das mulheres negras no desenvolvimento da tecnologia e da inovação

Pense numa ótima programação quinta feira às noite. Pensou? Agora inclua nela um lugar aconchegante, um sofá cinza ocupado por quatro mulheres negras conversando sobre tecnologia, direitos humanos e ciênciaEsse foi o “Mulheres Negras Pautando o Futuro”, que aconteceu no últimos mês, em junho, no Olabi. Contou com as presenças de Jurema Werneck, diretora-executiva da Anistia Internacional Brasil; Sonia Guimarães, cientista e primeira professora negra do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA); Gabriele Roza, repórter da Agência Pública, Coletivo Nuvem Negra, coordenadora de comunicação da Rede Umunna e Sil Bahia, diretora do Olabi e coordenadora do PretaLab.

Com a presença de um público majoritariamente negro, o encontro pautou o levantamento feito pela PretaLab sobre a necessidade de incluir mulheres negras em todos os espaços do desenvolvimento da tecnologia e da inovação. Para a garantia de direitos, é preciso que estas mulheres estejam nos cargos, nos debates, nas conferências, na diretoria de empresas e projetos.

 

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Sil Bahia, Sonia Guimarães, Gabriele Roza e Jurema Werneck

História

Criado em 2017 pelo Olabi (organização social com foco em tecnologia, diversidade e inovação), a PretaLab é uma iniciativa que visa estimular a participação de mulheres negras e indígenas na tecnologia. Através de uma pesquisa iniciada ano passado, a equipe do projeto mapeou mulheres no Brasil que trabalham, lidam, produzem tecnologia e inovação e foi feita uma série de vídeos para estimular outras mulheres e meninas a considerarem esses campos. Em resumo, a PretaLab é uma causa, a fim de mostrar a necessidade da inclusão de raça e gênero na criação de uma tecnologia socialmente mais justa, inclusiva e diversificada.

Mulheres negras, a base da pirâmide!

As mulheres negras possuem os piores índices sociais no Brasil e estão na base da chamada pirâmide social. No ambiente familiar, são as que mais sofrem com a violência doméstica e as que mais têm a responsabilidade de sustentar a família, muitas vezes, criando os filhos sozinhas sem a presença ou qualquer tipo de ajuda do pai da criança. No trabalho, possuem os menores salários e as taxas mais altas de desemprego. Consequentemente, pela falta desses recursos, há uma dependência do serviço público de saúde, e quando precisam utilizá-lo, além de lidar com o descaso, as mulheres negras são as que mais sofrem com a violência obstétrica.

No âmbito político, os números também são desanimadores. Nas eleições de 2016, o percentual de negras concorrendo ao cargo de vereadora era de apenas 14,2%. Para prefeita, o número cai para 0,13% e durante esses mais de 30 anos da nova democracia, apenas cinco mulheres negras foram ministras. Num país em que mais da metade da população (54%) se autodeclara preta ou parda, sendo 27% mulheres negras, fica o questionamento: onde estão essas mulheres negras em posições importantes na sociedade?

O mundo do trabalho, as profissões, tem que contribuir para o desenvolvimento e mudança da sociedade. A área da tecnologia é uma delas e vem avançando rapidamente ao fazer parte das nossas vidas de diversas formas. A tecnologia é o futuro e é necessária a presença de mulheres negras pautando e construindo este futuro. 

O evento

No evento, foram discutidas diversas maneiras de participação na ciência. Experiências foram compartilhadas – cada uma na sua especificidade, mas todas colaborando umas com as outras. Para Gabriele Roza, estudante de jornalismo da PUC Rio, que compôs o “sofá de conversa”, foi gratificante estar ao lado de referências e é enriquecedor ouvir mulheres negras contando suas histórias e ações.

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Gabi Roza, repórter da Agência Pública, do Coletivo Nuvem Negra e coordenadora de comunicação da Rede Umunna| Foto: Amanda Pinheiro

“O evento foi lindo demais, é sempre bom escutar mulheres negras contando suas histórias e seus movimentos, eu fiquei muito feliz! A Jurema, a Sil e a Sonia são grandes referências. As três romperam barreiras bem difíceis para as mulheres negras.

Ao mesmo tempo que é muito triste saber que nós, negras, só conseguimos fazer os debates que elas fazem hoje, dos direitos humanos, da tecnologia e da ciência, é muito bom poder escutá-las e saber o que pensam para o futuro. Inicialmente estava nervosa, claro, mas é muito confortável falar ao lado de mulheres negras para um público majoritariamente negro. ”, disse Gabi.

A estudante também acrescentou que a construção de um futuro feito por mulheres negras só é possível em conjunto. “A nossa geração está criando ferramentas e possibilidades para que mulheres negras no futuro finalmente tomem as decisões que impactam suas vidas.  Acredito que pautar o futuro hoje significa herdar a força e conhecimento ancestral de todas mulheres negras que lutaram e modificaram estruturas. Além de ter isso em mente, acho que não conseguimos pautar o futuro de forma individual, as mulheres negras precisam estar cada vez mais articuladas entre si para que isso seja possível”, ressaltou Gabriele.

A importância da diversidade nesses campos da tecnologia e inovação é necessária, pois, a partir de múltiplos olhares e perspectivas, é possível ter uma facilidade de acesso à essa área que sempre foi pensada e conduzida principalmente por brancos, heterossexuais, pessoas de classe média e ricas. Diretora de projetos do Olabi, idealizadora e coordenadora do PretaLab, Silvana Bahia, contou como foi elaborar o evento, que será transformado em um projeto e falou da relevância dessa discussão.

“Eu senti como se tivesse uma magia lá, apesar de estar nervosa, em acalmei depois, porque estava muito envolvida com o que aquelas mulheres tinham para falar. Esse assunto desperta o interesse de pessoas diferentes principalmente de nós, mulheres negras, e o que eu sinto quando vejo isso é a urgência e a necessidade de falar sobre e como a gente precisa criar esses espaços para discussões. Sou a idealizadora e coordenadora PretaLab e o mulheres negras pautando o futuro é um projeto novo que será um ciclo de formação não-linear para mulheres negras (principalmente). Sou grata à toda a equipe do Olabi, que me ajudou nesse trabalho. Tivemos parceiros incríveis para que isso acontecesse.”, disse.

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Surpresa: a atriz Camila Pitanga também esteve presente no evento

Sil fez ressalvas de como mulheres negras podem pautar o futuro e sobre seu papel nesse âmbito. “Ser exceção não é uma sensação boa, mas desde que estou nesse ambiente branco e de pauta elitista, eu me sinto como alguém que pode fazer um pouquinho para abrir espaços e levar pessoas negras para essa cena também. E o sentido de estar ali é lutar para não ser uma exceção, que na verdade eu não sou. Porque tem muita gente negra incrível fazendo coisas legais e que a gente às vezes não conhece e acho que um dos papeis que tenho nesse trabalho, que também é a minha vida, é de alargar esse espaço, essa fissura, como foi dito lá. E isso está atrelado às pessoas e aos direitos, que é a grande ponte que queremos fazer entre a tecnologia e a sociedade como um todo. Poder pensar os direitos por um viés tecnológico, porque tem uma amplitude muito maior. Por isso é importante levar principalmente mulheres negras para esse ambiente.”, acrescentou Sil.

Se cuide, se ame

A sensação de solidão, principalmente nesses espaços é inevitável. Não somente na vida profissional, mas na afetiva, as mulheres negras também têm esse sentimento. Porém nessa parte final do texto, deixo o registro de uma fala da Sonia Guimarães, que particularmente me emocionou, e mexeu com todos no evento.

“A mulher negra passa por muitos processos durante a vida, que realmente desanima. Mas não podemos deixar esses pensamentos negativos controlarem nossa mente, nós somos muito mais do que isso. Quando você se sentir mal porque uma pessoa não te quis, por estar solteira ou sentir dificuldades na profissão que escolheu, não fique triste, você não está sozinha! Nós somos lindas, inteligentes, temos capacidade de fazer muitas coisas e não estamos sozinhas, não mesmo! Se cuide, se ame. O autocuidado é muito importante e precisamos estar juntas!”, disse Sonia, causando uma euforia e emocionando a todos.

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Para saber mais sobre o PretaLab, clique aqui. 

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