Texto: Rithyele Dantas

Nesta quinta-feira, na Cinelândia, centro do Rio, centenas de pessoas se concentraram para seguir ao Tribunal de Justiça, Assembleia Legislativa e a Igreja da Candelária gritando pelo óbvio, gritando por um direito básico e universal: o de viver.

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Moradores das favelas de Acari, Complexo do Alemão, dos conjuntos de favelas da Maré, do Chapadão e de diversas outras favelas do Rio levaram, à praça da Cinelândia, toda a potência que o favelado tem. A potência do movimento do corpo, do tom da voz, da emoção balbuciante de falar por aqueles e daqueles que tiveram suas vidas ceifadas. A potência daqueles que encontram na dor motivos para continuar gritando cada vez mais alto.

Cigarro na mão, olhar distante e sem brilho. Bruna Silva, uma mulher com sede de ir até o fim, uma mulher que estendeu, durante todo o ato, a camisa ensangüentada de seu filho. Bruna Silva, uma mulher que escolheu não se calar e não se esconder. Uma mulher que decidiu expor à mídia o crime da juventude perdida, a de Marcos Vinicius da Silva. Bruna Silva, que recebia amorosamente cada braço, é a mãe do menino que estava no lugar certo, no horário certo. É a mãe que vive o momento da saudade da voz, do cheiro, da vida. A mãe do menino que estava a caminho da sala de aula e foi baleado. O menino que perguntou à mãe a frase que reverberou e tirou a paz de todos esta semana: “mãe, eles não viram que eu estava com a blusa de escola?” ( E reescrever essa frase foi uma das coisas mais difíceis que já fiz na vida).

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Bruna Silva, moradora da Maré e mãe de Marcos Vinicius | foto: Rithyele Dantas

HELICÓPTERO NA CABEÇA E SALVE-SE QUEM PUDER!

Uma aeronave que deveria ser utilizada apenas para orientar as ações policiais, começa a ser usado de forma arbitrária atirando a esmo. O “caveirão aéreo”, como os próprios moradores de favelas começaram a chamar, também estava em ação no dia em que Marcos Vinicius e mais seis pessoas, que não tiveram nem nome divulgados, foram assassinados. No conforto do lar, assistindo televisão ou almoçando com a família, qualquer pessoa pode, pela ação de caça, ser baleada.

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Helicóptero sobrevoando a Maré | Foto: Agência Brasil

“É uma sensação muito ruim, o helicóptero dá rasantes, a impressão que dá é que ele vai pousar na sua casa (…) eu moro no segundo andar, é uma realidade muito absurda, tenho que descer pra casa da minha mãe e o lugar mais seguro é o banheiro que é minúsculo, então ficam 10 pessoas num banheiro minúsculo. A realidade da favela é essa” diz Renata Souza que atua na Comissão de Direitos Humanos da ALERJ e é moradora da Maré.

A ação de helicópteros que vão à caça não é uma novidade, mas o debate ganhou mais voz esta semana. Um levantamento do Defezap, um serviço de denúncia de violência do Estado, mostra que, em um ano, pelo menos, em seis operações aeronaves efetuaram disparos.

Em agosto de 2017, um tiro que furou uma tenda e atingiu a cabeça do fruteiro Tião, do Jacarezinho, na zona norte do Rio, gerou uma série de manifestações contra a truculência das operações policiais.

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Marcas de tiros no teto da tenda de Tião no Jacarezinho | Foto: Caetano Manenti

Neste levantamento, foram, também, registrados tiros vindo do céu na Mangueira e na Maré que, na última semana, numa ação da ONG Redes da Maré, registrou 100 marcas de tiros no chão da favela. Ontem mesmo, (28), também na zona norte da cidade, moradores acordaram apavorados no Complexo do Lins e no Morro dos Macacos, porque aeronaves  fuzilaram estas favelas.

Mas mesmo antes desse último ano, helicópteros também já vinham agindo. Em 2009, no Morro dos Macacos, um helicóptero, numa troca de tiros, despencou do céu matando três policiais. No final de 2012, uma ação cinematográfica com cenas chocantes mostraram a caça da polícia civil a um dos maiores traficantes do Rio de Janeiro: o Matemático. Morto em Senador Camará, zona oeste. Em meio a muita emoção e pouca razão, frases mostraram a irresponsabilidade da ação: “Tá parecendo ele, hein?” – mas poderia não ser.

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Imagens do alto do helicóptero | reprodução do Fantástico

Em 2016, Na Cidade de Deus, também numa operação, quatro policiais militares morreram após o helicóptero cair, o que resultou, no outro dia, numa vingança sumária que sucedeu numa chacina de sete pessoas.

No Rio de Janeiro para uns, simbolicamente, há guerra, mas institucionalmente não há. Não houve, em nenhum momento, uma disputa ideológica ou territorial colocada, portanto, especialistas em Segurança Pública consideram inadmissível ações de guerra que acabam colocando em risco as vidas nas favelas, colocando em risco, trabalhadores, mulheres, idosos e, até mesmo, crianças a caminho da escola.

 MÃES CONTRA A VIOLÊNCIA DE ESTADO

É sempre arrepiante a presença das mães de movimento (e em movimento!) que comparecem aos atos contra as violações do estado e pela vida de jovens de favelas e periferias. As mães dos jovens que a cada 23 minutos são assassinados no país. Mães que parecem não ter mais nada a perder e tomam à frente dos atos, das lutas. No Brasil, diversas mães, que tiveram seus filhos tirado de seus colos, de suas casas, se organizam em espaços de acolhimento e luta por justiça.

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Intervenção de uma integrante da UNEGRO no ato da Cinelândia | foto: Rithyele Dantas

“Qual é a carne mais barata? a carne negra! Minha luta começa quando meu filho é assassinado no Pavão-Pavãozinho pela polícia. Quem atirou no meu filho tem 14 autos de resistência. Quando cheguei no hospital disseram que meu filho estava trocando tiro com a polícia, mas é mentira! As pessoas viram, mas tem medo de falar isso pro juiz. Agora, graças a Deus, nosso povo está fazendo atos e denunciando.” se manifesta Ivanir Mendes dos Santos, da rede de mães e de movimentos de luta por moradia.

A corajosa mãe de Marcos Vinicius, Bruna Silva, que não largava a blusa ensanguentada fazia questão de mostrá-la a todas as câmeras cobrando a resposta, querendo que o Estado assuma que alvejou seu filho de 14 anos, um menino que, segundo ela, gostava de internet e de zoar os amigos, um menino que queria viver, mas que teve esse direito retirado.

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Camisa de Marcos Vinicius, assassinado com um tiro | foto: Rithyele Dantas

Bruna diz ainda que, naquele dia, os moradores da Vila Pinheiro, uma das favelas da Maré, não foram avisados da operação, que foi tudo muito rápido, que o helicóptero dava rasante em seu telhado. Conta também que havia dois blindados em terra, um na esquina de sua casa e outro numa viela próxima. Diz que foi o da viela que atirou em Marcos Vinicius. Várias bocas e uma história só: os moradores viram o blindado atirando no adolescente e fugindo depois. Uma das frases de Marcos Vinicius antes de morrer também foi essa: “foi o blindado que atirou em mim, mãe!”

“Eu mandei meu filho pra escola limpinho, eles me devolveram ele sujo de sangue. Meu filho me fez uma pergunta, agora eu devolvo ela pro Estado: eles não viram que meu filho estava com roupa de escola? Eles viram, a mochila dele era fluorescente. Isso é a vergonha do nosso estado”

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Intervenção na praça da Cinelândia e uma frase de Marielle que ainda reverbera: “Quantos mais têm que morrer pra que essa guerra acabe?”

Bruna também tem uma filha, a Maria Vitória da Silva, onde ela deposita a esperança do amanhã. A menina de 12 anos, também é estudante da na Maré e, segundo sua mãe, ficou completamente em choque após a notícia.

“Vocês querem saber como era o Marcos Vinicius? É só perguntar pra irmã dele, ela conta tudinho. É muita história, gente!”

Bruna teme pela vida de sua filha: “Deus me livre mandar minha filha limpinha e ela voltar que nem o irmão”, mas disse que não abre mão da filha estudar onde estuda e nem de morar na Maré.

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Bruna Silva caminha em direção a igreja da Candelária com camisa de Marcos Vinicius exposta

“É pela vida da minha filha, é pelas crianças da Maré (…) Eu quero que o Estado assuma, eu não tenho que provar nada pra ninguém, quem tem que me provar é eles. A mãe do Marcos Vinicius tá aqui presente e eu quero saber quem alvejou Marcos Vinicius!”

 

 

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