Texto e fotos: Rithyele Dantas
@jornalistaspretas

Nem mesmo toda a luxuosidade das roupas usadas no Oscar Hollywoodiano serão capazes de desbancar todas as estampas das capulanas africanas que tomaram o Theatro Municipal do Rio de Janeiro na última segunda-feira, dia 11.

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Um grande tapete vermelho se abriu para tecidos, corpos, peles, traços, texturas e vidas carregados de história. O Theatro Municipal ficou negro, parecia a África – e, de fato, era: um rei de Ifé, cidade do Sudoeste da Nigéria, e uma comitiva de mais de 120 africanos entre eles intelectuais, lideranças religiosas, políticas e muitos afrodescendentes brasileiros.

Os estados da Bahia, Rio de Janeiro e Minas Gerais viveram na semana passada um momento histórico. Um soberano de tradição Iorubá chegou ao país com a intenção de reconectar dois irmãos cruelmente separados: a África e o Brasil, nossa diáspora negra. Oba Adeyeye Enitan Ogunwusi Ojaja II herdou o trono da cidade Ifé em 2015 e, ao pegar o microfone no Theatro Municipal, se disse feliz em conhecer seus filhos desta parte do mundo. Disse, também, que seu espírito estava alto e alegre.

“O amor que existe no mundo não existe sem Deus. Devemos dar amor ao outro. Com amor e paz e gente vai se mover. Com o amor e compaixão, o mundo vai ser um lugar muito melhor. Quero que digam que a liberdade é a nossa riqueza!” e assim se fez o coro “Liberdade é a nossa riqueza!”

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Olhadelas lacrimejantes e corpos que se arrepiavam a cada frase do rei de Ifé. A mensagem era simples, direta e forte: o amor é importante e poderoso. Deus é importante e poderoso. Os orixás são importantes e poderosos. Os orixás estão nas coisas mais simples do dia a dia. O oxigênio é um orixá, a água é um orixá, a terra é um orixá, porque sem esses elementos, no mundo, não há vida.

Segundo o site Slave Voyages  – uma base de dados digital que reúne um extenso trabalho internacional de historiadores -, as Américas receberam cerca de 10 milhões de escravizados. A estimativa do estudo é de que mais de 5 milhões de africanos tenham desembarcado no Brasil. A presença de um soberano da tradição africana é um fato histórico e importantíssimo para o país.

Não coincidentemente, o Rio, a Bahia e Minas foram os destinos de Ooni de Ifé. Eles são alguns dos estados brasileiros que mais carregam a herança dos negros do país, um fenômeno que se dá pela massiva chegada de corpos e mentes negras escravizadas. Salvador, que estrategicamente já foi a capital do território do lado de cá do Atlântico, foi o primeiro rumo do rei em terras brasileiras. Salvador e Ifé assinaram acordo de cidades-irmãs. Em séculos passados, os acordos comerciais dos traficantes residentes em Salvador privilegiavam os contatos em locais como os portos dos atuais Benin e Nigéria, regiões densamente povoadas por pessoas de etnia Iorubá. Salvador, na Bahia, foi o lugar que mais recebeu o povo Iorubá no Brasil.

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Ué! rei na Nigéria? Lá tem Monarquia?

A negação do ensino sobre a África nas escolas, mesmo após a sanção da lei 10.639, que obriga o ensino da história africana e afrobrasileira, dificulta a compreensão do que é o povo Iorubá ou o povo africano de qualquer outra etnia. E isso, infelizmente, acarreta jogar todos os africanos num mesmo saco, como se fossem uma coisa só. Mesmo dentro de uma mesma etnia, há diversidade. Uma etnia, mesmo sendo apenas uma, também tem suas diferenças, como é o próprio caso da língua. Embora pertencendo ao mesmo grupo lingüístico, as línguas entre os Iorubás também podem ter as suas diferenças.

Apesar de denominarmos de Ooni enquanto Rei, não há, na Nigéria, uma monarquia – o que existe, na verdade, é uma república presidencialista. Chamam-no de “rei” para atribuir mais importância, mas a denominação, além de um sentido ocidental, não é uma tradução perfeita de “Ooni”, que seria o soberano na cultura iorubá. E esse soberano só é soberano de uma tradição e de um mito fundador, que é a criação de todo homem e de todo Orixá e do Universo, por Olodumaré, justamente na cidade
de Ifé.

THEATRO MUNICIPAL OU OSCAR PRETO?

Era possível ver, em vários rostos e olhares a sensação de surpresa ao ver quem assistia (e fazia!) o espetáculo no Theatro Municipal. De um lado, pretos, do outro também. No palco artistas do funk, do jongo, da música, do samba, da poesia. Do outro, na plateia, olhares fixos, emocionados, celulares que saiam dos bolsos e das bolsas para gravar cada detalhe que não se pode esquecer.

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“Tudo foi feito na raça!”

Sami Brasil, artista e empreendedora do Instituto Black Bom conta que todo o trabalho que resultou num espetáculo inesquecível foi fruto de uma rede de afetos. Tudo foi feito voluntariamente por grupos da sociedade civil, entre eles empreendedores, pais, mães de santo e artistas, que trabalharam para uma noite de reverência à cultura negra carioca. Ela conta também que foi difícil e que, pelo caminho, alguns desacreditaram. A própria Secretaria de Cultura só apoiou no último momento.

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“Escolhemos o Theatro Municipal porque estava à altura, mas ali é um espaço ainda elitista (…) Foi um fato icônico conseguir encher aquele lugar. A gente do IBB (Instituto Black Bom) teve coragem de pegar pra produzir, temos uma rede muito grande de irmãos. Apesar de todas as adversidades, foi um dia lendário, uma ocupação, dia de protagonismo preto. Não sei se já teve um evento assim do porte. Optamos por não encher o palco de famosos também. Optamos por quem esta aí dia a dia na guerra (…) O que aconteceu não tem preço”

Nada do evento e da própria vinda do rei teria acontecido sem um casal: Yemi e Carolina. Yemi é um nigeriano que mora no Rio de Janeiro foi quem começou a mobilização para conseguir trazer o rei ao ao Brasil. Yemi mostrou ao Ooni de Ifé como os afrodescendentes se movimentam aqui. Mostrou o complexo, bonito e ancestral ato de se movimentar. Mostrou como dançam, cantam, jogam, trabalham. E não deu outra, pelos vídeos, o rei se encantou.

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“O motivo de eu estar aqui é me conectar com todos os meus irmãos do Brasil, é para sabermos que de fato liberdade é a nossa riqueza e a maior liberdade do mundo é a liberdade da mente, porque quando sua mente está livre não existe nada que você não possa fazer neste mundo. Quando sua mente está livre você pode se expressar, quando ela está livre você tem autoestima. A gente precisa construir a nossa autoestima neste mundo. Deus criou todos nós com um propósito na vida, qual é o seu propósito?”

Todo o espetáculo foi cuidadosa e carinhosamente feito por artistas e produtores negros da cidade, desde as vestimentas às letras das músicas e poesias. Um evento importantíssimo para a comunidade negra carioca (brasileira e da América!).

Importante criticar que, pelo Estado e pela grande imprensa, a vinda do rei não recebeu tamanha importância que merecia. E se fosse um rei europeu?

Foi tudo muito forte. No fim, a cortina se abriu, surgiram todos os produtores e artistas com o rei à frente. Num ato de carinho, ele abençoou todos os seus filhos brasileiros. O brasileiro, ou, como diria Darcy Ribeiro, o “povo novo”, se tornou complexo, mas também nasceu dos muitos povos africanos. Essa relação não pode ser mais negada pelo racismo das instituições. Um evento de gala e uma mensagem simples que quem estava naquela noite não vai esquecer: O amor é importante e a liberdade é a nossa maior riqueza.

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13 comentários sobre “Tapete vermelho se abre para rei africano de Ifé, mas imprensa ignora

  1. Fui a artista a cantar Funk naquele palco para nosso Rei e nunca senti uma energia tao forte quanto naquele dia, a emoção foi algo incrivel e orgulho da minha Cia e dos meus diretores por ter nos ajudado a mostrar nosso cultura para Ooni de Ifé🇧🇷✊🏾 LIBERDADE É NOSSA RIQUEZA
    Um dia que foi marcado em toda minha vida!!

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  2. Saudações às jornalistas pretas, excelente matéria.
    Axé ao nosso Ooni!
    Paz e Luz aos nossos irmãos afro!
    Sou diretor de uma escola quilombola, em Santana-Quatis/RJ.
    Professor Edson Henrique

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  3. Puxa vida, eu que sou professora de História, gostaria muito de ter presenciado esse fato histórico. Que bom, que bom que aconteceu, eu saúdo à todos(as) que lutaram para este fim. Multiplicarei esse episódio e farei, mais ainda minhas aulas de palco de resistência. Amém, axé!

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